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O assédio moral ressignificado pela lupa psicanalítica

Por Andre Talvani Pedrosa da Silva

                O assédio moral é definido como uma ação/comunicação hostil e desprovida de ética, perpetrada de forma sistemática por alguém contra um outro alguém, objetivando o controle e o domínio do seu território psíquico. A presente reflexão apresenta-se desconectada de preceitos jurídicos e pré-concepções sociais atuais designadas ao tema. Trata-se de uma reflexão construída a partir da neutralidade da lupa psicanalítica.

                O assédio moral é normalmente encenado por um assediador e um assediado, ambos atores compartilhando o mesmo elemento em cena: o sofrimento pulsional e um objeto representacional. Assumindo a premissa de que o comportamento humano é construído a partir dos“desejos”subtraindo suas“defesas”, o assediadordedica-se a uma busca incessante para suprir suas necessidades recalcadas, transformando suas ações num absoluto retorno a si mesmo (narcisismo). O assediador apresenta-se como um ser obsessivo e compulsivo, ainda que altere,de tempos em tempos, a personificação do seu objeto representacional. Estas ações são estruturadas num contexto de perversidade e sublimação (fetiche), onde a destruição psíquica do outro culminaria em prazer e, com isso, satisfação transitória para seu sofrimento pulsional. Por trás das ações perversas do assediador há inúmeras estratégias de defesa psíquica, dentre elas a projeção. O assediador identifica algo atribuído a ele naquele objeto representacional (o assediado) e, com isso, inicia ataques, julgamentos, críticas morais e ações paranoicas culminando na fragilização e na completa eliminação psíquica do assediado. Mas por que alguém agiria assim? A resposta é sempre individual e demanda uma decomposição do objeto representacional do assediador para o reconhecimento dos elementos inconscientes geradores de seu sofrimento.

                No palco do assédio moral o determinismo psíquico é sempre bilateral. Por isso o assediado também se sustenta frente à dor e ao sofrimento. Num primeiro momento, ele vivenciará um desconforto psíquico frente à primeira intervenção do agressor, não caracterizada ainda como assédio por não haver frequência na ação. Após novas intervenções, o assediado introjetará as ações do assediador e imergirá num sofrimento psíquico sem compreender a real razão aquele sentimento. O assediado criará um escudo de racionalização como defesa primária (ex. preciso suportar pois dependo deste trabalho, há uma questão afetiva envolvida, dentre outros). Mas em pleno século XXI e, diante dos instrumentos jurídicos e trabalhistas vigentes, vale a uma reflexão no viés psicanalítico sobre o “por que se permitir tal expiação frente a um assediador?”. A mesma decomposição proposta para o assediador é necessária para compreender a representação das agressões no universo psíquico do assediado.

              No presente contexto reflexivo, nomeamos os atores do palco do assédio como “assediado/assediador pulsionais”, onde suas ações se concatenam num campo pulsional interligado, interconectado por objetos representacionais complementares e, onde o sofrimento será o roteiro de suas encenações. O diferencial é que ao final desta peça teatral, o assediador permanecerá em seu sofrimento psíquico, pois o prazer contingenciado é volátil e, o assediado transformará o seu sofrimento psíquico num quadro pulsional de morte e numa deterioração de sua saúde psíquica/física (somatização).

ANDRE TALVANI PEDROSA DA SILVA
Estudante de psicanálise

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